quarta-feira, 5 de junho de 2013

Quem são os criminosos de guerra na Síria?

Patrick J. Buchanan


Na última semana, muitas pesquisas de opinião foram publicadas revelando a opinião do público americano sobre uma possível intervenção na Síria.

De acordo com a pesquisa do Huffington Post, os americanos se opõem a bombardeios aéreos na Síria por 3 a 1. Eles se opõem a enviar armas aos rebeldes por 4 a 1. Eles se opõem a colocar tropas americanas terrestres na Síria por 14 a 1. Democratas, republicanos e independentes são todos contra o envolvimento naquela guerra civil que já produziu 1,2 milhões de refugiados e 70.000 mortos.

Uma pesquisa da CBS/New York Times encontrou que por 62 a 24 os americanos querem ficar de fora da guerra síria. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos descobriu que 61 contra 10 americanos se opõem a qualquer intervenção americana.

Mas os números sofrem uma guinada quando o público é perguntado se faria diferença se o regime sírio usasse gás venenoso. Neste caso, a oposição à intervenção americana cai para 44 a 27 na Reuters/Ipsos.

Mesmo assim, no domingo os programas de entrevista estavam lotados dos falcões. Ter um senador que defende o armamento dos rebeldes e bombardeios aéreos americanos dá mais ibope que um senador que quer ficar de fora da guerra.

Na mesma pesquisa da CBS, porém, os 10% de todos os americanos que afirmam acompanhar a situação síria de perto, estavam igualmente divididos, 47 a 48, se deveria haver a intervenção.

O retrato da América que surge é a de uma nação não totalmente interessada no que está acontecendo na Síria, mas que em sua maioria quer ficar de fora da guerra.

Mas é também uma nação cuja elite da política externa é de longe mais intervencionista e muito mais apoiadora de enviar armas aos rebeldes e usar o poder aéreo americano. Destas pesquisas, não é difícil concluir que as elites de Beltway (n. do t.: o mundo social de Washington) que moldam a política externa dos EUA não representam mais o destino manifesto da América média.

A América não se tornou isolacionista, mas sim anti-intervencionista. Este país não quer que seus soldados sejam mais enviados em aventuras irresponsáveis como o Iraque e Afeganistão, e não vê qualquer interesse nacional vital naqueles que miram a Síria.

Mas quem está falando por esta grande maioria silenciosa? Quem no Senado americano está presente na TV opondo-se aos intervencionistas?

Quem no partido Republicano está combatendo os McCainmaníacos?

Outra estória que saiu este final de semana, sufocada pelas notícias dos ataques israelenses às instalações militares e depósitos de mísseis sírios, pode esfriar o ânimo da elite – e matar qualquer desejo público de intervir.

“Os rebeldes sírios podem ter usado gás sarin,” publicou a manchete da segunda-feira do New York Times. Citando Genebra, a estória começa:

“Os investigadores dos direitos humanos das Nações Unidas reuniram testemunhos das baixas da guerra civil síria e enfermeiros indicando que as forças rebeldes usaram o agente neurológico sarin, disse um dos principais investigadores no domingo.”

A comissão das Nações Unidas não encontrou evidência de que o exército sírio tenha usado armas químicas. Mas Carla Del Ponte, uma ex-promotora suíça e membro da comissão, disse:

“Nossos investigadores estiveram nos países vizinhos entrevistando as vítimas, médicos e hospitais provisórios, e de acordo com seus relatos da última semana, que eu vi, há fortes e concretas suspeitas, mas não ainda prova irrefutável do uso do gás sarin, a partir do estado em que as vítimas se encontram.”

“Isto foi usado por parte da oposição, os rebeldes.”

Ou seja, os criminosos de guerra podem ser as pessoas em cuja defesa supostamente devemos intervir. E se foram os rebeldes que usaram o gás sarin, e não as forças do presidente Bashar Assad, mais do que umas poucas perguntas precisam ser respondidas.

Apenas duas semanas atrás, a Casa Branca informou ao Congresso:

“Nossa comunidade de inteligência afirmou, com graus variados de confiança, que o regime sírio usou armas químicas em pequena escala na Síria, especificamente, o agente químico  sarin.”

Um clamor geral então exigiu que Obama fizesse bom uso de sua ameaça de que o uso de gás venenoso pelo regime sírio cruzaria a “linha vermelha” e seria uma “aposta”, exigindo “enormes consequências”.

Se os militares sírios não usaram o sarin, mas sim os rebeldes, quem na comunidade de inteligência dos EUA blefou? De quem as agências americanas obtiveram sua evidência de que o sarin foi usado por Damasco? Quase fomos arrastados para outra guerra desnecessária pelas últimas mentiras de alguém sobre armas de destruição em massa?

Quando as alegações do uso de sarin pelo governo sírio foram levantadas, muitos no Congresso, especialmente no Partido Republicano, denunciaram Obama por fraqueza em sustentar sua ameaça da “linha vermelha”.

Parece agora que Obama pode nos ter salvo de outro desastre estratégico ao não prosseguir com a ação militar. E a questão deveria ser colocada aos falcões da guerra:

Se o uso de sarin por Assad deveria exigir bombardeios aéreos americanos, o uso de sarin pelos rebeldes, se confirmado, faria com que este país lavasse suas mãos em relação àqueles criminosos de guerra?

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